Stélio M. Chambule
Introdução
No contexto da teologia reformada contemporânea, poucos temas suscitam tanto debate como a relação entre a doutrina dos dons espirituais e a autoridade da Confissão de Fé de Westminster (CFW). É frequente afirmar-se que a Confissão adopta uma posição inequivocamente cessacionista. Contudo, uma leitura atenta do texto confessional revela que essa conclusão não decorre explicitamente da própria Confissão, mas antes de uma tradição interpretativa desenvolvida por diversos teólogos reformados ao longo dos séculos.
A CFW ensina de forma inequívoca a suficiência das Sagradas Escrituras, bem como o encerramento da revelação canónica. Todavia, não declara expressamente que todos os dons extraordinários do Espírito Santo cessaram com a era apostólica. Esta distinção é fundamental, pois permite compreender por que razão diversos teólogos reformados de orientação continuísta consideram possível subscrever integralmente a Confissão sem comprometer os seus princípios fundamentais.
A suficiência das Escrituras
A CFW estabelece, de forma clara e categórica, que toda a revelação necessária para a glória de Deus e para a salvação do homem foi plenamente concedida nas Escrituras.
O capítulo I, secção VI, declara:
«"Todo o conselho de Deus, concernente a todas as coisas necessárias para a sua própria glória e para a salvação, fé e vida do homem, ou é expressamente declarado na Escritura, ou pode ser por boa e necessária consequência deduzido da Escritura; à qual nada, em tempo algum, se acrescentará, quer por novas revelações do Espírito, quer por tradições dos homens."»
Esta afirmação constitui um dos pilares da teologia reformada. A Escritura é suficiente, completa e constitui a única regra infalível de fé e prática. Consequentemente, nenhuma alegada revelação posterior pode ampliar, corrigir ou complementar o depósito da fé já entregue à Igreja.
O encerramento da revelação canónica
A mesma doutrina encontra-se expressa no capítulo I, secção I, onde a Confissão afirma:
«"...cessaram aqueles antigos modos de Deus revelar a sua vontade ao seu povo."»
O contexto desta declaração diz respeito aos meios extraordinários pelos quais Deus comunicou a sua revelação inspirada antes do encerramento do cânone, nomeadamente através de profetas, apóstolos, sonhos e visões.
Assim, a CFW ensina claramente que cessou a revelação normativa e inspirada que deu origem às Sagradas Escrituras.
O que a Confissão não afirma
Importa, porém, distinguir cuidadosamente entre aquilo que a Confissão afirma e aquilo que ela não afirma.
Em nenhum lugar a CFW declara explicitamente que:
- Deus deixou de conceder curas extraordinárias;
- o dom de línguas cessou definitivamente;
- toda a forma de profecia, entendida como distinta da revelação canónica e subordinada às Escrituras, desapareceu necessariamente com a morte dos apóstolos;
- todos os dons extraordinários cessaram de forma absoluta.
Esta ausência não deve ser ignorada. Do ponto de vista hermenêutico, uma confissão de fé deve ser interpretada segundo aquilo que efectivamente afirma, e não segundo conclusões que lhe sejam posteriormente atribuídas.
A possibilidade de um continuísmo confessional
É precisamente por esta razão que alguns teólogos reformados sustentam que é possível adoptar uma posição continuísta sem deixar de subscrever honestamente a CFW.
Todavia, tal posição apenas permanece dentro dos limites confessionais se reconhecer que:
- nenhuma manifestação espiritual contemporânea possui autoridade equivalente à das Escrituras;
- qualquer alegada profecia deve ser submetida ao julgamento da Palavra de Deus;
- nenhuma experiência espiritual pode introduzir nova doutrina ou ampliar o cânone;
- Cristo continua a governar a sua Igreja por meio das Escrituras inspiradas, que permanecem a autoridade suprema em matéria de fé e prática.
Nesta perspectiva, uma eventual profecia contemporânea nunca poderá ser considerada inspirada, infalível ou dotada de autoridade canónica.
A distinção essencial
A questão central não reside propriamente na oposição entre cessacionismo e continuísmo, mas entre a aceitação ou rejeição da suficiência das Escrituras.
A CFW combate toda a pretensão de novas revelações dotadas de autoridade normativa para a Igreja. Porém, não afirma explicitamente que Deus esteja impossibilitado de conceder determinados dons extraordinários, desde que estes não sejam entendidos como revelação inspirada nem coloquem em causa a suficiência da Palavra de Deus.
Consequentemente, um continuísta reformado que rejeite qualquer nova revelação canónica e submeta todas as manifestações espirituais à autoridade das Escrituras pode sustentar, com coerência, que permanece dentro dos limites doutrinários estabelecidos pela Confissão.
Conclusão
A Confissão de Fé de Westminster ensina inequivocamente duas verdades fundamentais: a suficiência das Sagradas Escrituras e o encerramento da revelação canónica. Contudo, não declara expressamente que todos os dons miraculosos cessaram.
Assim, não parece metodologicamente correcto afirmar que a CFW exige, por si só, um cessacionismo absoluto. Muitos continuístas reformados conseguem subscrevê-la de forma íntegra e consistente, desde que distingam claramente entre a revelação inspirada, definitivamente encerrada com o cânone bíblico, e eventuais manifestações espirituais contemporâneas, sempre falíveis, sempre subordinadas às Escrituras e jamais revestidas de autoridade normativa.
Esta leitura preserva simultaneamente o princípio da Sola Scriptura, a suficiência da Palavra de Deus e a soberania de Cristo como único Senhor e Cabeça da sua Igreja.
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