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A Crise Querigmática na Igreja Moçambicana

O termo querigma vem do grego kērygma e significa proclamação, anúncio público. No contexto bíblico, trata-se da mensagem central do evangelho — não um detalhe teológico, não uma opinião denominacional, mas o conteúdo essencial que deve ser pregado com urgência. O querigma não é um luxo acadêmico; é o coração da fé cristã pulsando no púlpito.


Mas afinal, o que compõe o querigma?


A Escritura é clara. O querigma anuncia que Deus é santo, criador e juiz; que o homem, por causa do pecado, encontra-se culpado e separado d’Ele; que Jesus Cristo veio ao mundo, viveu sem pecado, morreu na cruz como substituto dos pecadores e ressuscitou ao terceiro dia; que Ele é Senhor e Salvador; e que há um chamado urgente ao arrependimento e à fé. Essa mensagem não é opcional — ela exige resposta. É isso que vemos de forma consistente nas pregações registradas em Atos dos Apóstolos: um anúncio direto, centrado em Cristo, confrontador e transformador.


O querigma não entretém — ele confronta. Não massageia o ego — ele expõe o pecado. Não promete conforto terreno — ele chama à rendição total diante do senhorio de Cristo.

É precisamente aqui que se evidencia uma crise profunda na igreja moçambicana contemporânea: a ausência do querigma nos púlpitos.


Multiplicam-se vozes que se autointitulam “apóstolos”, “profetas” e “homens de poder”, mas cuja mensagem está distante — quando não completamente divorciada — do conteúdo do evangelho bíblico. Fala-se muito de prosperidade, de conquistas, de batalhas espirituais, de chaves, de portais, de níveis e dimensões, mas fala-se pouco — ou quase nada — sobre pecado, arrependimento, cruz e santidade.


O problema não é meramente terminológico, como se fosse necessário que esses líderes dominassem o conceito acadêmico de “querigma”. A crise é mais grave: trata-se de uma ignorância prática e espiritual do próprio conteúdo que deve ser proclamado. Não é que não usem a palavra — é que não pregam a realidade que ela representa.


Quando o querigma desaparece, o que resta é substituição:


  • o evangelho é trocado por motivação
  • a cruz é substituída por conquistas pessoais
  • o arrependimento dá lugar a declarações positivas
  • Cristo deixa de ser o centro, e o homem assume o trono


Isso não é uma simples mudança de estilo; é uma deformação da mensagem cristã. A consequência é inevitável: igrejas cheias, mas espiritualmente vazias; pessoas animadas, mas não regeneradas; seguidores de líderes, mas não discípulos de Cristo. É preciso dizer com clareza: um púlpito sem querigma pode ter barulho, emoção e até milagres aparentes, mas não tem evangelho. E onde não há evangelho, não há salvação.


A igreja em Moçambique não precisa de mais títulos eclesiásticos, nem de mais espetáculos religiosos. Precisa urgentemente de um retorno à simplicidade e ao poder da mensagem apostólica: Cristo crucificado e ressuscitado, sendo anunciado com fidelidade e autoridade.

Recuperar o querigma não é voltar ao passado — é voltar à verdade. E sem essa verdade no centro da pregação, qualquer crescimento será apenas numérico, nunca espiritual.


A pergunta que fica é inevitável:


os nossos púlpitos ainda proclamam o evangelho — ou apenas produzem ruído religioso com linguagem espiritual?