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A Prioridade da Leitura na Vida do Pastor

Stélio M. Chambule


Ao longo da minha vida, li muitas coisas. Algumas delas foram úteis, outras contribuíram para minha formação intelectual, mas também há leituras das quais hoje me arrependo. Não porque fossem necessariamente ilícitas, mas porque consumiram tempo e energia que poderiam ter sido investidos em materiais de valor muito mais duradouro para a alma e para o ministério.


Com o passar dos anos, aprendi a dar maior relevância à leitura das Escrituras Sagradas, das confissões de fé, das declarações históricas da Igreja, dos documentos conciliares e das obras que contribuíram para a preservação e transmissão fiel da fé cristã ao longo dos séculos. Percebi que não é saudável ocupar a mente constantemente com polêmicas, discussões intermináveis e assuntos que pouco ou nada contribuem para a nossa espiritualidade, piedade e crescimento no conhecimento de Deus.


Um dos grandes desafios do ministério pastoral contemporâneo é a abundância de informação. Nunca foi tão fácil acessar conteúdos, opiniões e debates. Contudo, nem tudo o que é acessível é proveitoso. O pastor é chamado a ser, antes de tudo, um homem da Palavra. Sua principal responsabilidade não é estar atualizado sobre cada controvérsia da internet, mas conhecer profundamente as Escrituras para alimentar o rebanho de Deus.


Quando o apóstolo Paulo exorta Timóteo a dedicar-se à leitura (1 Timóteo 4:13), o contexto deixa claro que essa leitura está intimamente ligada às Escrituras e à sã doutrina. A autoridade do pastor não procede de sua familiaridade com as últimas tendências teológicas ou debates virtuais, mas de sua fidelidade à Palavra de Deus.


Por essa razão, a leitura pastoral deve seguir uma ordem de prioridades. Em primeiro lugar, as Escrituras. Nenhum comentário, tratado teológico ou obra devocional pode substituir o contato diário, reverente e profundo com a Palavra inspirada de Deus. A Bíblia não é apenas uma fonte de sermões; ela é o alimento da alma do próprio pastor.


Em segundo lugar, vêm os materiais auxiliares que ajudam na compreensão das Escrituras: comentários bíblicos, teologia sistemática, teologia bíblica, história da Igreja, confissões de fé e escritos dos grandes servos de Deus do passado. Essas obras são valiosas porque servem como instrumentos que nos ajudam a compreender melhor aquilo que Deus revelou em Sua Palavra.


As confissões e catecismos históricos merecem atenção especial. Elas representam séculos de reflexão teológica cuidadosa e preservam a sabedoria acumulada da Igreja. Ignorá-las frequentemente leva o pastor a redescobrir erros já refutados ou a repetir debates já resolvidos pelas gerações anteriores.


Isso não significa que toda polêmica deva ser evitada. Existem momentos em que o pastor precisa defender a verdade contra o erro. Contudo, uma vida ministerial definida principalmente por controvérsias produz homens combativos, mas nem sempre piedosos. O objetivo do estudo pastoral não deve ser apenas vencer debates, mas conhecer melhor a Deus, amar mais a Cristo e servir melhor à Sua Igreja.


Pastores que leem prioritariamente as Escrituras tornam-se mais bíblicos. Pastores que leem as Escrituras juntamente com os melhores recursos da tradição cristã tornam-se mais equilibrados. Mas pastores que alimentam suas mentes principalmente com controvérsias, discussões e disputas correm o risco de se tornarem especialistas em críticas enquanto permanecem deficientes em devoção.


Que cada pastor procure cultivar uma biblioteca que fortaleça sua comunhão com Deus, sua fidelidade doutrinária e sua capacidade de edificar o povo de Cristo. Afinal, o rebanho não necessita de homens saturados de polêmicas, mas de homens saturados da Palavra de Deus.