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Atos dos Apóstolos e a Destruição do Humanismo Eclesiástico

Atos dos Apóstolos e a Destruição do Humanismo Eclesiástico


Stélio M. Chambule


Uma das características mais marcantes do livro de Atos é a insistência de Lucas em atribuir todas as realizações extraordinárias da Igreja à operação do Espírito Santo. Isso deveria ser óbvio para qualquer leitor honesto, mas a mente humana é naturalmente inclinada à idolatria. Quando vê um homem pregar com poder, deseja exaltar o pregador. Quando vê um milagre, deseja glorificar o instrumento. Quando vê uma igreja crescer, deseja estudar os métodos humanos empregados. Lucas destrói essa tendência repetidamente.

Sempre que algo extraordinário acontece, ele aponta para a mesma causa: o Espírito Santo.


Pedro prega diante das autoridades? “Pedro, cheio do Espírito Santo…” (Atos 4:8).


A igreja manifesta ousadia sobrenatural? “Todos ficaram cheios do Espírito Santo…” (Atos 4:31).


Estêvão enfrenta a morte com fé inabalável? “Estêvão, cheio do Espírito Santo…” (Atos 7:55).


Paulo confronta Elimas? “Paulo, cheio do Espírito Santo…” (Atos 13:9).


A repetição não é acidental. Lucas está ensinando teologia. O problema é que muitos leitores modernos possuem pressupostos humanistas. Eles leem Atos e procuram técnicas de liderança. Procuram princípios de crescimento institucional. Procuram estratégias de comunicação. Procuram modelos administrativos.


Lucas, entretanto, não está interessado em satisfazer essa curiosidade carnal.

Seu argumento é simples: Deus produz sua obra por meio de seu próprio poder.


O Poder Não Pertence ao Homem


Observe como Pedro reage após a cura do coxo:


“Por que olhais para nós, como se por nosso próprio poder ou piedade o tivéssemos feito andar?” (Atos 3:12).


Pedro rejeita imediatamente qualquer atribuição de poder inerente ao homem. Mas a mentalidade humana continua a mesma até hoje. As pessoas desejam acreditar que certos indivíduos possuem uma capacidade espiritual especial em si mesmos. Desejam atribuir o sucesso ministerial à personalidade, ao talento ou à inteligência.


  • Pedro não permite isso.


  • Lucas não permite isso.


  • A Escritura não permite isso.


  • O homem é instrumento. Deus é a causa.


  • O homem é servo. Deus é o agente.


  • O homem fala. Deus concede o poder.


A Doutrina Bíblica da Dependência


A narrativa de Atos constitui uma humilhação sistemática da autossuficiência humana.


  • Pedro era pescador.


  • Estêvão era diácono.


  • Barnabé era um crente comum.


Paulo, apesar de sua formação intelectual, não recebe destaque por sua educação quando realiza feitos extraordinários. Lucas atribui seu poder à plenitude do Espírito Santo. Isso porque a capacidade humana nunca foi a explicação.


Se a inteligência fosse a causa, os filósofos gregos teriam conquistado o mundo. Se a influência política fosse a causa, Roma teria produzido o Reino de Deus. Se a eloquência fosse a causa, os sofistas teriam transformado a história. Mas Deus escolheu homens fracos para demonstrar que o poder pertence exclusivamente a Ele.


Uma Acusação Contra a Igreja Moderna


Muitas igrejas contemporâneas falam do Espírito Santo, mas operam como se tudo dependesse da competência humana.


  • Planeiam sem oração.


  • Executam programas sem dependência espiritual.


  • Confiam em marketing mais do que na proclamação bíblica.


  • Estudam técnicas empresariais com mais dedicação do que estudam as Escrituras.


Então perguntam por que não veem o mesmo impacto observado em Atos. A resposta é simples. Em Atos, os apóstolos dependiam do Espírito Santo. Hoje, muitos dependem de si mesmos. A diferença não está em Deus. A diferença está na fonte de confiança.


A Nossa Ortodoxia Não Substitui o Poder do Espírito Santo


Um dos perigos que rondam os círculos reformados é a tentação de confundir precisão teológica com poder espiritual. Temos catecismos sólidos, confissões robustas, excelentes comentários bíblicos, sistemas teológicos bem desenvolvidos e uma tradição intelectual invejável. Contudo, devemos ter a honestidade de reconhecer que nada disso substitui a obra do Espírito Santo.


O livro de Atos deveria nos humilhar profundamente. Os apóstolos não possuíam seminários teológicos, bibliotecas digitais, séculos de literatura reformada acumulada ou os recursos acadêmicos que possuímos hoje. Entretanto, o impacto de seu ministério foi extraordinário. Cidades foram abaladas, multidões foram convertidas, opositores foram confrontados, igrejas foram plantadas e o evangelho avançou contra todas as probabilidades.


A explicação apresentada por Lucas não é complicada. Homens e mulheres cheios do Espírito Santo foram usados por Deus para realizar a obra de Deus. Isso deveria nos levar a uma reflexão séria.


Por mais importante que seja a ortodoxia doutrinária, ela não foi projetada para funcionar independentemente do Espírito Santo. A teologia correta é indispensável, mas não é autossuficiente. O conhecimento bíblico é uma bênção, mas não é uma fonte de poder em si mesmo. A capacidade de explicar corretamente a doutrina da justificação, da eleição ou da aliança não produz automaticamente o impacto espiritual que encontramos em Atos.


A verdade é que muitas vezes somos fortes em formulações teológicas e fracos em dependência espiritual. Somos capazes de identificar erros doutrinários com precisão impressionante, mas nem sempre demonstramos a mesma intensidade em oração.


Conseguimos explicar a soberania de Deus em detalhes, mas frequentemente nos esquecemos de depender dEle na prática. Defendemos corretamente a doutrina do Espírito Santo, mas nem sempre buscamos sua atuação com a mesma seriedade com que estudamos livros sobre Ele.


Não se trata de escolher entre teologia e espiritualidade. Essa é uma falsa dicotomia. Os apóstolos possuíam ambas. Eles tinham doutrina e poder. Verdade e dependência. Convicção teológica e plenitude espiritual. O problema surge quando começamos a confiar em nossa ortodoxia como se ela fosse suficiente por si só.


A história da Igreja demonstra repetidamente que Deus pode usar homens com pouca instrução formal e grande dependência dEle para produzir resultados que confundem os sábios. Isso não diminui a importância do estudo; apenas nos lembra que o estudo nunca foi a fonte do poder. A fonte continua sendo Deus.


Talvez precisemos reconhecer que uma das maiores limitações dos nossos círculos não seja a falta de conhecimento, mas a tendência de confiar excessivamente nele. Podemos possuir excelentes argumentos e, ainda assim, carecer daquela ousadia, daquela paixão evangelística, daquela perseverança na oração e daquela dependência do Espírito que caracterizavam a Igreja de Atos. O fato de sermos reformados não nos torna automaticamente semelhantes aos apóstolos.


Possuir uma teologia refinada não garante um ministério frutífero. Conhecer as doutrinas da graça não significa necessariamente que estamos vivendo na plenitude da graça. Se quisermos ver algo que sequer se aproxime do que encontramos no livro de Atos, precisaremos de mais do que livros, conferências, debates e formulações doutrinárias. Precisaremos do mesmo Espírito que capacitou Pedro, Estêvão, Barnabé e Paulo.


  • A boa notícia é que o Espírito Santo não se aposentou.


  • O Deus que operou no primeiro século continua sendo o mesmo.


  • A questão, portanto, não é se Deus continua poderoso.


A questão é se estamos realmente dependendo desse poder ou se estamos tentando realizar a obra de Deus apoiados principalmente em nossas capacidades, estruturas e conhecimento. Atos nos lembra que a Igreja avança não apenas por meio da verdade corretamente compreendida, mas também por meio da verdade aplicada e impulsionada pelo poder do Espírito Santo.


  • Precisamos de teologia.


  • Precisamos de ortodoxia.


  • Precisamos de confissões.


  • Precisamos de estudo sério.


Mas precisamos lembrar constantemente que nenhuma dessas coisas foi destinada a ocupar o lugar que pertence exclusivamente ao Espírito Santo.


Conclusão


Lucas escreveu Atos para demonstrar a continuação da obra de Cristo através do Espírito Santo. A mensagem central não é que os apóstolos eram extraordinários. A mensagem central é que Deus é extraordinário.


Não era Pedro.

Não era Paulo.

Não era Estêvão.

Não era Barnabé.

Era o Espírito Santo operando através deles.


E enquanto os homens continuarem fascinados pelo instrumento em vez de glorificarem a causa última, continuarão a perder a principal lição do livro de Atos. Toda vez que Lucas diz que alguém estava cheio do Espírito Santo, ele está lembrando ao leitor uma verdade fundamental: a glória pertence a Deus porque o poder pertence a Deus.