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Cosmovisões em Confronto: Os “Ismos” da Sociedade à Luz da Escritura

Stélio M. Chambule


Ao estudar Ciência Política, encontramos uma grande variedade de “ismos” — sistemas de pensamento, ideologias e correntes filosóficas que procuram explicar o homem, a sociedade, o Estado, a economia, a moralidade e o sentido da existência humana.


Cada um desses sistemas parte de determinados pressupostos sobre a realidade e procura oferecer respostas para os problemas da sociedade. Entretanto, para compreender adequadamente qualquer “ismo”, não basta perguntar o que ele propõe. É necessário perguntar também: qual é a sua visão de Deus, do homem, da verdade, da moralidade, da sociedade e do futuro?


1. ALGUNS DOS PRINCIPAIS “ISMOS”


• Liberalismo: enfatiza a liberdade individual, os direitos individuais, a propriedade privada e os limites ao poder estatal.


• Conservadorismo: valoriza a tradição, as instituições históricas, a continuidade social, a ordem e a prudência diante das mudanças.


• Socialismo: enfatiza a igualdade socioeconômica e maior controle ou participação coletiva na produção e distribuição das riquezas.


• Marxismo: interpreta a história principalmente através das relações de classe e propõe a superação do capitalismo por uma sociedade sem classes.


• Capitalismo: sistema econômico baseado na propriedade privada, nos mercados, no investimento e na busca de lucro.


• Nacionalismo: coloca a identidade e os interesses da nação no centro da organização política.


• Globalismo: privilegia a cooperação e estruturas supranacionais diante de uma realidade política e econômica globalizada.


• Progressismo: defende reformas sociais e culturais orientadas por concepções contemporâneas de igualdade, direitos e inclusão.


• Feminismo: conjunto de correntes que analisam e procuram transformar as relações sociais entre homens e mulheres, especialmente quanto a direitos e igualdade.


• Secularismo: defende a distinção entre instituições religiosas e estruturas do Estado e da vida pública.


• Humanismo secular: procura fundamentar a ética e o sentido da vida principalmente na razão, na experiência humana e em valores não religiosos.


• Relativismo: sustenta que verdades, valores ou normas podem depender do contexto cultural, histórico ou individual.


• Pós-modernismo: questiona grandes narrativas universais e enfatiza linguagem, cultura, perspectiva e construção social do conhecimento.


• Existencialismo: concentra-se na existência humana, liberdade, responsabilidade, escolha e sentido.


• Naturalismo/materialismo: entende a realidade fundamentalmente em termos da natureza e da matéria, sem recorrer ao sobrenatural.


• Individualismo: coloca o indivíduo, sua autonomia e seus direitos como elementos fundamentais da vida social.


• Coletivismo: dá primazia ao grupo, à comunidade ou à sociedade sobre os interesses individuais.


• Secularização: processo pelo qual a religião e as instituições religiosas perdem influência sobre determinadas áreas da vida social.


• Tecnocracia: entende que decisões sociais e políticas devem ser fortemente orientadas por especialistas, dados e conhecimento técnico.


• Utilitarismo: avalia ações principalmente pelos seus resultados, especialmente pela quantidade de bem-estar ou benefício que produzem.



2. AS GRANDES PERGUNTAS POR TRÁS DE TODOS OS “ISMOS”


Ao analisar essas correntes, percebo que elas, em última análise, procuram responder às grandes perguntas da existência humana.


1. O que existe? — METAFÍSICA


Qual é a natureza última da realidade? Quem criou o universo? Deus, a matéria, o acaso ou alguma combinação desses elementos?


2. Como sabemos? — EPISTEMOLOGIA


Como o homem pode conhecer a realidade? A razão humana é a autoridade última ou Deus revelou objetivamente a verdade?


3. O que é o homem? — ANTROPOLOGIA


Quem é o ser humano? É ele a imagem de Deus? Um animal racional? Um indivíduo autônomo? Um produto das relações econômicas e sociais?


4. O que é certo? — ÉTICA


Existe uma lei moral objetiva? Se existe, quem é o Legislador?


5. Como devemos viver juntos? — POLÍTICA E SOCIEDADE


Qual deve ser a finalidade do Estado? Qual é o lugar da família, da propriedade, da economia, da educação e das demais instituições?


6. Para onde estamos indo? — ESCATOLOGIA


Qual é o destino da humanidade? A história caminha para o progresso humano, para uma sociedade construída pelo próprio homem, para alguma forma de evolução histórica ou para a consumação do Reino de Deus?



3. A QUESTÃO FUNDAMENTAL


É nesse ponto que a cosmovisão cristã precisa entrar em cena. A Escritura não apresenta a realidade como dividida entre uma pequena esfera chamada “religião” e outras áreas supostamente neutras chamadas política, ciência, filosofia, economia, educação ou cultura. Toda a realidade pertence a Deus.


“Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente.” Romanos 11:36


Paulo também declara:


“Pois, nele, foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis [...] tudo foi criado por meio dele e para ele. Ele é antes de todas as coisas. Nele, tudo subsiste.” Colossenses 1:16–17


Portanto, Deus não é apenas o Senhor da vida devocional. Ele é o Senhor da realidade inteira.


A política está debaixo do senhorio de Cristo.


A economia está debaixo do senhorio de Cristo.


A educação está debaixo do senhorio de Cristo.


A ciência está debaixo do senhorio de Cristo.


A filosofia está debaixo do senhorio de Cristo.


A família está debaixo do senhorio de Cristo.


A moralidade está debaixo do senhorio de Cristo.


A pergunta decisiva, portanto, não é simplesmente:


“Qual destes ismos resolverá os problemas da humanidade?”


A pergunta mais profunda é:


“Qual visão da realidade corresponde à verdade revelada por Deus?”


4. CONCLUSÃO


Depois de observar tantos sistemas de pensamento, uma conclusão teológica se impõe: os diversos “ismos” procuram solucionar problemas reais da humanidade, mas nenhum deles consegue alcançar o problema mais profundo do homem.


O problema fundamental do ser humano não é meramente econômico, político, social ou institucional. O problema é a queda e suas consequências.


O pecado afetou a totalidade da existência humana: nossa relação com Deus, nossa moralidade, nossos pensamentos, nossos desejos, nossos relacionamentos e a própria organização da sociedade. Por isso, embora diferentes ideologias possam identificar corretamente determinados problemas e até propor soluções úteis para questões particulares, nenhuma ideologia humana pode produzir a verdadeira redenção do homem.


O nosso problema é, em última análise, espiritual. E, sendo espiritual em sua raiz, não pode ser solucionado definitivamente apenas por uma nova estrutura política, uma nova teoria econômica, uma nova filosofia, uma nova revolução social ou uma nova concepção antropológica.


O problema do homem encontra sua solução somente em Deus, por meio da pessoa e obra de Jesus Cristo. Cristo não veio simplesmente oferecer mais um sistema entre tantos outros. Ele veio reconciliar pecadores com Deus, vencer o pecado e a morte e estabelecer o seu senhorio sobre todas as coisas.


Por isso, sem a realidade de Deus e sem a autoridade de sua Palavra, continuaremos produzindo novos sistemas, novas ideologias e novos “ismos”, cada um prometendo solucionar aquilo que o anterior não conseguiu resolver. E muitos desses sistemas, depois de exercerem influência por determinado período, poderão cair no fracasso, ser substituídos ou simplesmente cair no esquecimento.


Continuaremos inventando novos “ismos” enquanto não reconhecermos o problema fundamental do homem: sua rebelião contra o seu Criador. A verdadeira questão não é simplesmente inventar uma sociedade melhor, mas reconhecer que o homem precisa de redenção. E essa redenção não está em um “ismo”. Está em Cristo.


Por isso, todas as nossas teorias sobre o homem, a sociedade, a política, a ciência e a moralidade precisam ser submetidas à verdade objetiva da Palavra de Deus. A Escritura não é apenas mais uma opinião no grande mercado das ideias. Ela é a Palavra do Deus que criou todas as coisas e diante de quem todo pensamento humano será finalmente julgado.


Assim, teses, teorias, ideologias, sistemas filosóficos, títulos acadêmicos, dissertações e PhDs não constituem a autoridade última da verdade. Quando o homem raciocina em rebelião contra Deus, sua erudição não resolve seu problema fundamental.


A verdadeira sabedoria começa quando o homem reconhece:


“O temor do SENHOR é o princípio do saber.” Provérbios 1:7


E encontra sua consumação naquele em quem estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento:


“Em quem todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento estão ocultos.” Colossenses 2:3