Stélio M. Chambule
Na segunda-feira, um dos meus irmãos e amigos na fé enviou-me um link no qual aparecia um suposto profeta do distrito de Chimoio, em pleno culto, trajado com uma camiseta com o emblema da FRELIMO, partido no poder. No vídeo, ele dizia expressões como: "este meu Presidente, este meu partido", e chegou a colocar uma fotografia do Presidente dentro do local de culto, a "igreja", afirmando que a deixaria ali para orar sempre por ele.
Diante disso, a primeira pergunta que devemos fazer não é simplesmente se aquele homem agiu bem ou mal. A pergunta mais importante é: o que é o culto cristão? Quem instituiu o culto? A quem ele pertence? Quem deve ser o centro dele? E quais são os elementos que devem ocupar o nosso culto? A Bíblia deixa claro que o culto pertence a Deus. Jesus disse que o Pai procura aqueles que o adoram "em espírito e em verdade" (Jo 4:23-24). Paulo afirma que todas as coisas são "dele, e por meio dele, e para ele" (Rm 11:36). Portanto, quando a igreja se reúne, não estamos diante de uma plataforma disponível para promover qualquer pessoa, partido, ideologia ou projeto pessoal. Estamos diante do povo de Deus reunido para adorar a Deus.
Podemos orar pelo Presidente? Sim. A Bíblia manda que se façam orações pelas autoridades (1Tm 2:1-2). Podemos desejar que Deus dê sabedoria ao Governo? Sim. Podemos orar pela paz, pela justiça e pelo bem da nossa nação? Certamente. Mas existe uma diferença fundamental entre orar por uma autoridade e transformar uma autoridade em elemento central do culto.
O Presidente pode ser assunto da nossa oração, mas Deus é o destinatário da oração. Podemos respeitar o Estado sem transformar o Estado em objeto de devoção. Podemos ser cidadãos de uma nação sem transformar uma identidade política em identidade da igreja. Podemos reconhecer as autoridades sem colocá-las no lugar que pertence a Cristo. A igreja não existe para ser extensão religiosa de nenhum partido.
A questão torna-se ainda mais séria quando símbolos, personalidades e interesses políticos começam a ocupar, dentro da igreja, um espaço que deveria ser ocupado pela Palavra de Deus, pela oração, pela pregação, pelos sacramentos e pela adoração. Paulo diz que, quando a igreja se reúne, tudo deve ser feito para edificação (1Co 14:26). A igreja primitiva perseverava na doutrina dos apóstolos, na comunhão, no partir do pão e nas orações (At 2:42).
Por isso, precisamos perguntar: o que estamos a fazer quando nos reunimos para cultuar? Estamos a exaltar Cristo ou uma personalidade? Estamos a anunciar o Evangelho ou a promover uma ideologia? Estamos a formar discípulos ou a construir uma base de apoio? Estamos a glorificar a Deus ou a construir a imagem de um líder?Essas perguntas precisam de ser feitas sem medo.
Também precisamos de falar de algo que muitas vezes é ignorado: as motivações por trás de certos ministérios religiosos. Nem todo aquele que usa o título de profeta, pastor, bispo ou apóstolo necessariamente está a buscar a glória de Cristo. Há ministros que transformam a igreja num verdadeiro império religioso pessoal. A igreja deixa de ser um instrumento para anunciar o Evangelho e passa a ser uma plataforma para a promoção do próprio líder.
Tudo gira em torno dele: a opinião dele, a imagem dele, os interesses dele, as alianças dele, as ideologias dele, o partido dele. E, pouco a pouco, Cristo deixa de ser o centro. Se Cristo não é o centro, isso é gravíssimo, estranho às Escrituras Sagradas e deveria sê-lo para qualquer congregação que tenha o mínimo de conhecimento das Escrituras. Paulo disse: "Não pregamos a nós mesmos, mas a Cristo Jesus como Senhor" (2Co 4:5).
O ministro cristão não recebeu a igreja para construir um reino pessoal. A igreja pertence a Cristo. Jesus disse: "Edificarei a minha igreja" (Mt 16:18). Minha igreja. Não a igreja do pastor. Não a igreja do profeta. Não a igreja do bispo. Não a igreja do partido. A igreja de Cristo. Por isso, devemos avaliar os frutos, os ensinos e também as práticas daqueles que se apresentam como ministros de Deus. Não devemos aceitar tudo simplesmente porque alguém diz: "Deus me revelou", "sou profeta" ou "não toqueis no ungido".
A Escritura manda testar os espíritos (1Jo 4:1), examinar aquilo que é ensinado (At 17:11) e rejeitar aquilo que contradiz o Evangelho (Gl 1:8-9). Essa responsabilidade não pertence somente aos pastores. Nós, cristãos e membros das igrejas, também somos responsáveis pelo que aceitamos. Não podemos entregar o nosso discernimento a qualquer líder religioso. Paulo escreveu aos Efésios: "E não sejais cúmplices nas obras infrutíferas das trevas; antes, porém, reprovai-as." Efésios 5:11
Isso significa que existe um momento em que o cristão precisa de parar de colaborar, de aplaudir e de financiar aquilo que sabe ser contrário aos princípios da Palavra de Deus. Não basta dizer: "É o nosso profeta." Não basta dizer: "É o nosso pastor." Não basta dizer: "Ele é ungido." A pergunta é: o que ele está a fazer com aquilo que afirma ter recebido de Deus?
Um cristão que conhece as Escrituras precisa de desenvolver discernimento suficiente para reconhecer quando a igreja está a ser usada para exaltar Cristo e quando está a ser usada para exaltar um homem. Precisamos fazer uma observação sobre a possibilidade de que, entre várias hipóteses, talvez estejamos diante de alguém que necessite de uma avaliação e intervenção profissional, e não simplesmente de críticas, exortações e discussões teológicas. Uma possível avaliação psiquiátrica é uma hipótese que não devemos simplesmente ignorar, embora qualquer avaliação dessa natureza deva ser feita por profissionais qualificados e não por especulação pública.
No final, a questão é simples: De quem é o culto? Se o culto é de Deus, então Deus deve ser o seu centro. O Presidente pode ser mencionado numa oração, mas não pode ocupar o lugar de Cristo. Um partido pode existir na sociedade, mas não deve ocupar o lugar da igreja. Um pastor pode liderar uma congregação, mas não é dono dela. Um profeta pode pregar, mas não recebeu autorização para transformar o culto numa plataforma pessoal.
A igreja existe para anunciar Cristo, proclamar o Evangelho, ensinar as Escrituras, fazer discípulos e adorar a Deus. Partidos passam. Presidentes passam. Governos passam. Líderes religiosos passam. Cristo permanece. Por isso, a pergunta que devemos fazer diante de qualquer culto não é simplesmente: "Quem está no púlpito?", mas: Quem está a ser glorificado?
E a resposta bíblica deve ser inequívoca: Cristo. Somente Cristo deve permanecer no centro. "Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém."
Romanos 11:36
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