Cristocentrismo vs. Antropocentrismo
Sou teólogo de formação. Isso significa que fui chamado a instruir o corpo de Cristo com base no conhecimento adquirido por meio do estudo diligente das Escrituras e da iluminação do Espírito Santo. Contudo, nunca fui grande admirador do uso exagerado de termos complicados apenas para demonstrar erudição. O verdadeiro mestre não se define pela quantidade de palavras difíceis que utiliza, mas pela sua capacidade de tornar inteligível aquilo que parece complexo. Se a teologia não puder ser compreendida pelo povo de Deus, ela perde grande parte de sua utilidade pastoral.
Dito isso, gostaria de refletir sobre dois conceitos importantes para a vida da igreja: Cristocentrismo e Antropocentrismo. O Cristocentrismo é a compreensão de que Cristo deve estar no centro de todas as coisas. A fé cristã, a pregação, a adoração e a própria vida da igreja devem girar em torno da pessoa e da obra de Jesus Cristo. Ele é o fundamento da igreja, o único mediador entre Deus e os homens e o cabeça do corpo de Cristo. Toda honra, toda glória e toda devoção pertencem a Ele. O testemunho das Escrituras aponta continuamente nessa direção: Cristo é o centro da redenção, da esperança e da mensagem do evangelho.
O Antropocentrismo, por sua vez, coloca o homem no centro. Nesse modelo, ainda que Deus seja mencionado, a atenção, a admiração e a dependência acabam sendo direcionadas às pessoas — líderes, pregadores ou figuras religiosas. Em vez de Cristo ocupar o lugar central da devoção, homens passam a ocupar esse espaço. Esse deslocamento muitas vezes começa de maneira aparentemente inocente. Em alguns contextos cristãos tornou-se comum ver pessoas com fotos de seus pastores como papel de parede no telefone, calendários com imagens de líderes religiosos ou outros objetos que destacam continuamente a figura de um homem.
Alguém poderia argumentar que isso é apenas respeito ou admiração. Entretanto, espiritualmente falando, esse tipo de prática pode revelar algo mais profundo: uma perigosa tendência de personalizar a fé em torno de líderes humanos. A Escritura ensina que devemos honrar aqueles que trabalham na obra de Deus. Pastores e mestres merecem respeito pelo serviço que prestam à igreja. Contudo, há uma linha muito clara entre honra bíblica e exaltação desordenada. Quando a imagem de um líder ocupa constantemente o nosso campo de admiração — seja na tela do celular, em calendários ou em expressões de reverência — corremos o risco de alimentar uma cultura de culto à personalidade.
Outro sinal desse deslocamento aparece na forma como muitos cristãos se dirigem a líderes espirituais, chamando-os constantemente de “pai”, “papa”, ou títulos semelhantes que sugerem uma espécie de dependência espiritual absoluta. Esse tipo de linguagem, quando usado de forma contínua e reverencial, pode reforçar uma mentalidade perigosa: a de que certos homens ocupam um lugar espiritual superior que se aproxima de uma mediação entre Deus e o povo. A igreja, porém, não foi chamada a ser líder-cêntrica, mas Cristo-cêntrica.
Nenhum pastor morreu na cruz pela igreja. Nenhum líder religioso é mediador entre Deus e os homens. Nenhum pregador é digno de ocupar o lugar simbólico de devoção que pertence exclusivamente a Cristo. Quando homens passam a ocupar o centro da admiração espiritual, algo essencial se perde. O pregador reformado Paul Washer certa vez afirmou: “Toda motivação que não seja Cristo em nossas vidas é idolatria.” Essa afirmação nos confronta com uma realidade séria. Sempre que Cristo deixa de ser o centro da nossa devoção, algo inevitavelmente ocupará esse espaço — e muitas vezes esse algo será um homem.
A história da igreja mostra repetidamente que, quando ministérios passam a girar em torno de personalidades, surgem distorções espirituais. A fé das pessoas passa a depender da presença de um líder específico, a admiração se transforma em exaltação e, pouco a pouco, Cristo deixa de ser o foco principal. O Cristocentrismo nos chama a realinhar continuamente a nossa devoção. Pastores são servos, mestres são instrumentos e líderes são cooperadores, mas somente Cristo é Senhor da igreja.
Por isso, a pergunta que cada cristão precisa fazer a si mesmo é simples e profunda: quem ocupa o centro da minha admiração espiritual? Se não for Cristo, algo precisa ser corrigido. A igreja floresce quando Cristo é exaltado, mas quando homens passam a ocupar o lugar que pertence a Ele, o caminho inevitável é o desequilíbrio espiritual. Que a nossa fé, a nossa devoção e até mesmo os símbolos que escolhemos para acompanhar o nosso dia a dia apontem sempre para o verdadeiro centro do cristianismo: Jesus Cristo.
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