Stélio M. Chambule
Resumo
A distinção entre necessidade e contingência constitui um dos pilares da ontologia cristã. A teologia histórica sempre sustentou que Deus existe necessariamente, enquanto toda a criação existe contingentemente. Esta distinção não é meramente filosófica, mas profundamente bíblica e confessional. O presente artigo analisa os conceitos de necessidade e contingência à luz das Escrituras, das confissões históricas da Igreja e da tradição teológica clássica. Argumenta-se que a compreensão correcta da necessidade divina protege a doutrina da aseidade, da independência e da imutabilidade de Deus, ao mesmo tempo que preserva a dependência absoluta da criação em relação ao seu Criador.
Introdução
Uma das questões mais antigas da filosofia e da teologia é a seguinte: por que existe algo em vez de nada? A resposta cristã histórica tem sido que toda a realidade criada encontra a sua explicação última em Deus, o Ser necessário.
Muitas confusões teológicas surgem quando Deus é concebido como um ser semelhante às criaturas, apenas maior ou mais poderoso. Nesse caso, torna-se inevitável perguntar: "Quem criou Deus?" Contudo, essa pergunta parte de uma premissa equivocada, pois pressupõe que Deus seja um ser contingente.
A teologia cristã clássica rejeita essa conclusão e afirma que Deus é o único Ser cuja existência é necessária, eterna e independente.
Definição de Contingência
O termo contingência deriva do latim contingere, significando "poder acontecer" ou "poder não acontecer".
Em ontologia, um ser contingente é aquele cuja existência não é necessária. Ele pode existir ou deixar de existir.
Por exemplo:
Todos esses exemplos demonstram que tais realidades dependem de causas externas para existirem.
A criação inteira é contingente porque recebeu sua existência de Deus.
O apóstolo Paulo declara:
A contingência da criação significa que nenhuma criatura possui em si mesma a razão da sua existência.
Definição de Necessidade
Necessidade refere-se àquilo que não pode deixar de existir.
Um ser necessário existe por si mesmo e não depende de qualquer causa externa para existir.
Na teologia cristã, somente Deus possui existência necessária.
Quando Deus se revela a Moisés em Êxodo 3:14, declara:
Esta afirmação demonstra que Deus existe por si mesmo e não deriva Sua existência de qualquer outra realidade.
A necessidade divina está intimamente ligada à doutrina da aseidade, isto é, a verdade de que Deus possui vida em Si mesmo.
A Necessidade Divina nas Confissões Históricas
Confissão de Fé de Westminster
No capítulo II, secção 2, lemos:
A confissão enfatiza que Deus não depende da criação para ser quem é.
A Sua existência é absoluta e independente.
Confissão Belga
O Artigo 1 afirma:
A expressão "simples ser espiritual" não indica simplicidade no sentido comum, mas a ausência de composição. Deus não é formado por partes. Consequentemente, não depende de nada para existir.
Segunda Confissão Helvética
No capítulo III, encontramos:
Esta declaração reafirma a doutrina da independência divina.
Tudo depende de Deus; Deus não depende de nada.
Aseidade: O Fundamento da Necessidade Divina
A palavra aseidade deriva do latim a se, que significa "de si mesmo".
A aseidade ensina que Deus possui Sua existência em Si mesmo.
Enquanto as criaturas recebem a existência, Deus simplesmente existe.
O teólogo reformado Louis Berkhof descreve Deus como:
Sem a doutrina da aseidade, Deus tornar-se-ia dependente de algo superior a Si mesmo, deixando de ser Deus.
A Contingência da Criação
A criação não apenas teve um começo, mas continua dependente de Deus para sua preservação.
Hebreus 1:3 ensina que Cristo sustenta todas as coisas pela palavra do Seu poder.
Isso significa que a criação não possui autonomia ontológica.
Se Deus retirasse Seu poder sustentador, toda a criação deixaria de existir.
João Calvino escreveu:
Portanto, a dependência da criação não é apenas histórica, mas permanente.
Implicações Teológicas
A Imutabilidade de Deus
Se Deus é necessário, Ele não pode sofrer alterações essenciais.
Toda mudança pressupõe a passagem de uma condição para outra.
Contudo, Deus é perfeição absoluta.
Portanto, não pode tornar-Se melhor nem pior.
A Soberania de Deus
A necessidade divina implica soberania absoluta.
Nenhum poder externo pode limitar ou controlar Deus.
Toda autoridade deriva d'Ele.
A Adoração
A adoração cristã encontra fundamento na necessidade divina.
Somente o Ser necessário é digno de adoração absoluta.
Qualquer ser contingente depende de outro e, portanto, não pode ocupar o lugar de Deus.
Resposta à Pergunta: "Quem Criou Deus?"
Esta pergunta pressupõe que Deus seja um ser contingente.
Entretanto, a doutrina cristã afirma que Deus é necessário.
Tudo o que começa a existir necessita de uma causa.
Deus não começou a existir.
Logo, Deus não necessita de causa.
A pergunta correcta não é "Quem criou Deus?", mas "Qual é o fundamento último de toda a realidade?"
A resposta bíblica é: Deus.
Conclusão
A distinção entre necessidade e contingência constitui um dos fundamentos da teologia cristã histórica. As Escrituras, bem como as confissões reformadas e a tradição cristã clássica, afirmam unanimemente que Deus é o único Ser necessário. Sua existência não depende de nada fora d'Ele mesmo. Em contraste, toda a criação é contingente e depende continuamente do poder sustentador de Deus. Esta verdade preserva a transcendência divina, fundamenta a soberania de Deus e estabelece a base racional para a adoração cristã. Negar a necessidade divina conduz inevitavelmente à negação do próprio conceito bíblico de Deus.
Referências Bibliográficas
CALVINO, João. Institutas da Religião Cristã. São Paulo: Cultura Cristã.
CONFISSÃO BELGA. Artigo 1.
CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER. Capítulo II.
HELVETIC CONFESSION (Segunda Confissão Helvética). Capítulo III.
BÍBLIA SAGRADA. Almeida Revista e Corrigida.
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