Stélio M. Chambule
Há cerca de 2 meses, enquanto conversava com um amigo sobre a minha recuperação do acidente, ele me falou sobre o ChatGPT e sobre como a inteligência artificial poderia transformar o mundo nos próximos anos.
Na minha ignorância sobre o assunto, imediatamente associei aquilo a um filme de ficção científica que havia assistido em 2009, no qual um computador altamente desenvolvido começava a controlar caixas eletrônicos, sistemas de segurança e outras estruturas cibernéticas, até chegar ao ponto de tentar dominar o mundo.
Confesso que, naquele momento, essa era praticamente a minha concepção de inteligência artificial: uma tecnologia que, cedo ou tarde, poderia escapar ao controle humano e dominar a sociedade. Foi somente depois que comecei a investigar o assunto com mais seriedade, experimentar ferramentas de IA e procurar compreender melhor suas capacidades e limitações que percebi que a realidade era muito mais complexa — e, ao mesmo tempo, muito mais próxima de nós do que eu imaginava.
Foi então que comecei a compreender que a grande questão talvez não seja apenas “o que a inteligência artificial será capaz de fazer?”, mas também:
“O que nós, seres humanos, faremos com aquilo que a inteligência artificial é capaz de fazer?”
Essa mudança de perspectiva levou-me a refletir não apenas sobre a tecnologia, mas sobre criatividade, responsabilidade, honestidade intelectual e os perigos de permitir que uma ferramenta criada para nos auxiliar passe a pensar em nosso lugar.
Etimologia
Etimologia (origem da palavra IA). A abreviatura AI tem sua origem no inglês IA, “Artificial Intelligence”, literalmente “inteligência artificial”.[1]
Para mim, “AI” significa “All Instant — Tudo Instantâneo”. Você não pode impedir o avanço da inteligência artificial, mas pode decidir como irá utilizá-la. Vivemos em uma era marcada pela impaciência, na qual as pessoas querem respostas imediatas, textos prontos, argumentos rápidos e soluções sem o processo necessário de reflexão. A inteligência artificial apenas reflete e potencializa essa realidade. Contudo, é a sabedoria do usuário que determinará se a IA será uma ferramenta ou uma mestra.
Uma ferramenta deve servir à criatividade humana, não substituí-la. Há uma diferença fundamental entre utilizar a IA para aperfeiçoar aquilo que você pensou e permitir que ela pense, pesquise, argumente, estruture e escreva praticamente tudo em seu lugar. Por exemplo, pedir à IA que identifique erros ortográficos, melhore a clareza de uma frase, sugira uma palavra mais adequada ou revise a gramática de um texto que você mesmo escreveu é muito diferente de pedir: “Escreva meu artigo acadêmico”, copiar o resultado e apresentá-lo como se fosse fruto da sua própria investigação e produção intelectual. No primeiro caso, a ferramenta está auxiliando o trabalho intelectual; no segundo, ela corre o risco de substituir o próprio trabalho intelectual.
O verdadeiro problema não é simplesmente utilizar inteligência artificial. O problema é transferir para a máquina aquilo que deveria ser realizado pelo próprio pesquisador e, depois, apresentar o resultado como produção pessoal. Isso pode produzir textos aparentemente sofisticados, mas intelectualmente vazios, porque o autor não passou pelo processo de leitura, investigação, comparação, análise, argumentação e conclusão que dá legitimidade à produção acadêmica. Na academia, o valor de um trabalho não está apenas no produto final, mas também no processo intelectual que conduz até ele. Um artigo acadêmico não é valioso simplesmente porque possui palavras difíceis, referências ou uma estrutura aparentemente profissional. Ele é valioso porque demonstra que alguém leu, investigou, compreendeu, avaliou criticamente as evidências e construiu uma argumentação própria.
Por isso, devemos aprender a utilizar a IA sem terceirizar nossa responsabilidade intelectual.
Podemos pedir à IA:
- que corrija erros ortográficos e gramaticais;
- que identifique problemas de clareza em um texto que nós mesmos escrevemos;
- que sugira maneiras diferentes de expressar uma ideia que já formulamos;
- que nos ajude a compreender um conceito difícil;
- que apresente objeções à nossa argumentação para que possamos respondê-las;
- que nos ajude a organizar ideias que já estamos desenvolvendo;
- que faça perguntas que nos obriguem a pensar mais profundamente.
Mas devemos ter cuidado quando passamos a pedir que ela pense por nós, escreva por nós e depois simplesmente assinamos o resultado.
Se a IA produziu praticamente toda a ideia, toda a estrutura, toda a argumentação e todo o texto, e nós apenas copiamos e colocamos nosso nome, precisamos ser honestos: quem realizou a produção intelectual? A inteligência artificial pode tornar uma pessoa mais produtiva, mas também pode torná-la intelectualmente preguiçosa. Pode ampliar a capacidade de um pesquisador diligente, mas também pode permitir que alguém simule conhecimento que nunca adquiriu. E talvez esse seja um dos grandes desafios acadêmicos da nossa geração: não confundir velocidade de produção com profundidade de conhecimento.
O fato de conseguirmos produzir um texto em poucos segundos não significa que adquirimos conhecimento em poucos segundos. A IA pode escrever um parágrafo em segundos; mas ela não pode substituir o processo pelo qual uma mente humana aprende a pensar.
Portanto, não precisamos rejeitar a inteligência artificial. Precisamos aprender a utilizá-la com sabedoria, responsabilidade e integridade intelectual. Use a IA como ferramenta, não como substituta do seu pensamento. Porque, no final, uma máquina pode produzir um texto em seu nome; mas a formação intelectual continua sendo responsabilidade sua.
[1] https://www.dicio.com.br/ia-4/ Acesso em 09/08/26
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