Stélio M. Chambule
No meu livro Teologia da Oração, não incluí um capítulo sobre os lugares de oração. Recentemente, alguém que leu o projeto perguntou-me o que a Bíblia ensina sobre orar em determinados lugares, como montes, desertos e outros locais onde Jesus e os apóstolos costumavam orar. A pergunta é importante e merece uma resposta bíblica. Vivemos um momento em que alguns cristãos, especialmente aqueles que vieram do pentecostalismo para a tradição reformada, podem acabar rejeitando certas práticas simplesmente porque foram muito usadas em ambientes pentecostais. Nesse processo, existe o perigo de “despejarmos a água juntamente com o bebê”. Não devemos perguntar primeiro: “Isso é pentecostal?” ou “Isso é reformado?”. A pergunta deve ser: “O que dizem as Escrituras?”
A Bíblia mostra claramente que Jesus orava em diferentes lugares. Em Lucas 6:12, lemos que Ele subiu ao monte e passou a noite em oração. Em Marcos 1:35, Jesus levantou-se de madrugada e foi para um lugar deserto para orar. Lucas 5:16 diz que Ele frequentemente se retirava para lugares solitários e orava. Pedro também orou em um terraço (At 10:9). Os cristãos oravam em casas (At 12:12). Paulo e Silas oraram e cantaram louvores dentro de uma prisão (At 16:25). E em Atos 16:13 encontramos Paulo e seus companheiros procurando junto ao rio um lugar de oração.
Portanto, não é antibíblico procurar um lugar específico para orar. Um monte, um campo, um quarto, uma praia ou qualquer outro lugar silencioso pode ser usado para buscar a Deus com maior concentração e sem distrações. Entretanto, precisamos evitar um erro: a Bíblia não ensina que o monte tenha algum poder espiritual especial. Jesus não subia ao monte porque Deus estivesse mais presente ali do que em outros lugares. O monte proporcionava solitude e um ambiente apropriado para oração.
Isso fica ainda mais claro em João 4. Quando a mulher samaritana perguntou se o lugar correto para adorar era o monte ou Jerusalém, Jesus respondeu que chegaria a hora em que os verdadeiros adoradores adorariam o Pai “em espírito e em verdade” (Jo 4:23). Paulo também diz: “Quero, portanto, que os homens orem em todo lugar” (1Tm 2:8).
Assim, podemos orar no monte, mas não precisamos do monte. Podemos orar em casa, na igreja, no campo, junto ao rio ou até mesmo numa prisão. O poder da oração não está no lugar; está em Deus.Por isso, não devemos cair nem no misticismo de pensar que determinados lugares possuem uma “unção” especial, nem no extremo de rejeitar a prática de procurar lugares de solitude simplesmente porque ela foi popularizada por determinados grupos.
Se alguém deseja subir ao monte para passar algumas horas em oração, meditação nas Escrituras e comunhão com Deus, não vejo nisso nada antibíblico. O que devemos rejeitar é a ideia de que Deus só ouvirá aquela oração porque foi feita no monte. Precisamos ter cuidado também para que nosso desejo de sermos “reformados”, “calvinistas” ou pertencermos a determinada tradição não se torne maior que nosso desejo de obedecer às Escrituras. Podemos admirar grandes teólogos e aprender com eles, mas nossa autoridade final não são os homens; é a Palavra de Deus. Portanto, a pergunta não deve ser: “Quem faz isso?”, mas: “A Bíblia permite ou ordena isso?”
E quanto aos lugares de oração, a resposta bíblica é simples: podemos orar em qualquer lugar, e podemos escolher determinados lugares para buscar a Deus com maior concentração. O lugar pode ajudar na oração, mas nunca substitui Deus. O monte não tem o poder. Deus tem. O lugar não torna a oração eficaz. Deus é quem ouve e responde.
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