Stélio M. Chambule
Desde a contestação eleitoral de 2024, Moçambique tem vivido um período marcado por manifestações, mortes, perseguições e profunda divisão política. Pessoas próximas de Venâncio Mondlane foram assassinadas, incluindo o advogado Elvino Dias. Depois da criação do ANAMOLA, continuaram a surgir denúncias de sequestros, assassinatos e tentativas de assassinato envolvendo membros e dirigentes ligados ao partido.
Os números divulgados sobre as vítimas precisam ser rigorosamente verificados. Não devemos transformar alegações em fatos nem suspeitas em condenações. Mas existe uma pergunta legítima que precisa ser feita:
Por que tantas pessoas ligadas a esse movimento político continuam sendo vítimas de violência?
Se não foi o Estado, então quem está por trás desses crimes? Se foram criminosos comuns, por que tantos casos permanecem sem respostas convincentes? E por que existe uma concentração tão preocupante de vítimas ligadas a determinado movimento?
Não precisamos ser apoiantes de Venâncio Mondlane ou do ANAMOLA para fazer essas perguntas. Uma vida humana não depende do partido que a pessoa apoia. Se alguém cometeu esses crimes, deve ser investigado, identificado e responsabilizado, seja quem for.
O silêncio diante de tantas mortes não pode ser normalizado. A democracia não é apenas o direito de votar. É também o direito de discordar, protestar e fazer oposição sem precisar morrer por causa disso.
Que busquemos a verdade — não a verdade da FRELIMO, do ANAMOLA ou de qualquer outro partido, mas simplesmente a verdade.
É, no mínimo, intrigante observar a celeridade, os recursos e o esforço empregados pelo Estado para responsabilizar Venâncio Mondlane por alegados crimes relacionados às manifestações pós-eleitorais de 2024, enquanto não se percebe a mesma intensidade, urgência e dedicação na investigação das mortes de pessoas ligadas ao seu movimento — incluindo o seu advogado e amigo pessoal, Elvino Dias, morto em circunstâncias que continuam a exigir respostas.
Se o Estado tem recursos para investigar, processar e eventualmente condenar Venâncio, por que não demonstra a mesma determinação para identificar, julgar e condenar aqueles que assassinaram membros e apoiantes do seu partido?
Por que existe tanta celeridade para julgar uns e aparentemente tanta demora para fazer justiça a outros?
A função do Estado não deveria ser proteger a dignidade e a vida humana sem distinção partidária?
Se uma pessoa pertence à ANAMOLA, isso faz com que a sua vida tenha menos valor? Seus familiares merecem menos justiça? Seus assassinos devem receber menos atenção das instituições?
Como cristão e como alguém que estuda teologia, não posso deixar de lembrar que a justiça não deve ser administrada segundo conveniências políticas: “Não farás acepção de pessoas no juízo” (Dt 1:17).
Por isso, não afirmo que o Estado seja responsável por essas mortes sem provas. Mas questiono por que a intensidade demonstrada para perseguir e responsabilizar Venâncio não é igualmente demonstrada para esclarecer e responsabilizar os autores dos crimes cometidos contra aqueles que caminham com ele.
Essa assimetria é, no mínimo, preocupante.
E quando a justiça parece seletiva, surge inevitavelmente uma pergunta:
Estamos diante de justiça — ou de perseguição política?
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