Carrinho de compras
Loading

Literatura Infantil em Portugal: um panorama histórico e crítico

Quem é que não se lembra de um livro que tenha marcado a sua infância? Aquela história que nos transportava para mundos mágicos, que nos fazia rir ou até chorar, que nos ensinava sem que déssemos por isso. Que caminho percorreram esses tais livros até chegarem a nós?


E como é que, afinal, se define o que é ou não "literatura infantil"?


Caros leitores, partilho convosco o que aprendi acerca deste tema.


No fundo, o que conta como literatura infantil?


Parece uma pergunta simples, mas a verdade é que durante muito tempo ninguém levou muito a sério os livros para crianças. Tendencialmente eram vistos como um "subproduto sofrível" — uma espécie de primo " mais pobre" da literatura "a sério". Alguns estudiosos chegaram até a chamar-lhe "subliteratura".


Houve, contudo, quem tivesse começado a levar a coisa mais a sério. Para alguns, a literatura infantil é basicamente uma conversa entre um adulto que escreve e uma criança que lê, e essa conversa tem de ter em conta o que a criança é capaz de entender e sentir.

Posteriormente surge uma outra ideia ainda mais abrangente havendo quem defendesse que a literatura infantil se dividia em três tipos:


A literatura "recuperada" — aquelas histórias que não foram feitas para crianças, mas que elas acabaram por adotar, como os contos tradicionais que eram contados oralmente;


A literatura "criada" — os livros que foram mesmo escritos a pensar nos mais novos;


A literatura "instrumentalizada" — aqueles livros com uma função mais didática, como dicionários e enciclopédias.


Além disso, há um pormenor interessante: a literatura infantil não se define por quem a escreve, mas sim por quem a lê. É o destinatário que a define.


Pode assim dizer-se que as autoridades no assunto definem a literatura para a infância como: toda a produção literária feita por adultos, pensada para crianças, tendo em conta a sua idade e as suas características especiais.


Mas como é que isto tudo começou em Portugal?


Façamos uma viagem no tempo. Pegamos num mapa e viajemos até uma época em que as crianças eram vistas como "adultos em miniatura". Até ao Renascimento ninguém achava que as crianças precisassem de livros diferentes dos que liam os adultos. Se um adulto entendia, a criança também deveria entender.

Em Portugal, as primeiras coisas que se escreveram para crianças tinham um objetivo muito claro: ensinar.


O livro era, sobretudo, uma ferramenta de estudo. Não havia grande preocupação em entreter ou em despertar a imaginação.

Fora da escola, as crianças ouviam histórias contadas oralmente, como os contos tradicionais que iam passando de geração em geração.

A grande viragem acontece no final do século XIX, com a famosa "geração de 70".

É nesta altura que aparecem figuras como Guerra Junqueiro, que em 1887 publica "Os Contos para a Infância" e diz uma coisa que ainda hoje faz todo o sentido: "para educar as crianças é preciso amá-las".

Começam a surgir as primeiras coletâneas de contos de Andersen, Grimm e Perrault. Maria Amália Vaz de Carvalho, uma escritora da época, defendia que era fundamental dar às crianças histórias que elas entendessem, que as fizessem rir e chorar e, em 1882, publica "Os Contos para os Nossos Filhos", com a ajuda do esposo.


O século XX: quando a coisa se tornou mais vincada.


O século XX foi um período de mudanças profundas. Portugal tornou-se uma república (em 1910) e, com isso, vieram novos ideais: combater o analfabetismo, investir na educação, criar uma nova geração de leitores. E, claro, isso refletiu-se nos livros para crianças.


Ana de Castro Osório (1872-1935), diga-se, é uma figura fundamental. Ela criou a revista "Para as Crianças" em 1897 e escreveu imensas histórias. Mas atenção: muitas delas tinham uma forte carga patriótica e cívica. A literatura, nessa altura, também servia para incutir valores e ideais.


A grande revolução, no entanto, chega com Aquilino Ribeiro (1885-1963). Este senhor, aclamado romancista, decide escrever em 1924 "O Romance da Raposa". Acontece que esta obra é considerada por muitos como o grande clássico da literatura infantil portuguesa. O motivo? Porque quebrou com a tradição moralista e pedagógica.

Finalmente, um livro para crianças que era antes de mais... um bom livro, com qualidade literária. Uma história bem contada, com graça e inteligência.


Depois da Primeira Guerra Mundial, a literatura infantil ganha um prestígio que nunca havia tido.

Escrever para crianças começa a atrair escritores de outro calibre e que que reconhecem devido valor associado a esta área - autores como António Sérgio e Fernando de Castro, por exemplo, foram nomes sinonimo de dedicação à mesma.


Mas nem tudo foi simples. Durante o Estado Novo, agudizou-se uma tendência conservadora e nacionalista. Nesse âmbito, a literatura infantil servia para exaltar os valores da nação e a história de Portugal. No entanto, a partir dos anos 60 começam a surgir obras com humor e crítica social característicos pela capacidade de questionar a realidade vigente.


E depois do 25 de abril?


O 25 de abril de 1974 foi um marco de relevo. Finda a censura, a liberdade de expressão e a abertura ao exterior, a literatura infantil ganha um novo fôlego.

É nesse contexto que surge Luísa Ducla Soares, uma das vozes mais importantes da literatura infantil portuguesa contemporânea. Em 1970 publica o seu primeiro livro de poesia e, em 1972, "História da Papoila".

Esta obra foi tão apreciada que o Secretariado Nacional de Informação (a censura do regime) quis dar-lhe um prémio que a autoria, por motivos políticos e ideológicos, viria a nao aceitar. Uma atitude de grande coragem, num tempo em que isso tinha consequências.

A partir de então, a literatura infantil em Portugal nunca mais parou de crescer. A produção de livros aumentou, a qualidade também, e os temas diversificaram-se.

Hoje, felizmente, já ninguém duvida que os livros para crianças podem (e devem!) ser arte.




Através da leitura de José António Gomes, fica traçado um percurso histórico e crítico da literatura infantil e juvenil portuguesa, evidenciando que os primeiros esforços para criar livros direcionados aos mais novos remontam ao século XVIII, embora se limitassem a traduções e textos formativos.

Foi no século XIX, com o liberalismo e o aumento do número de leitores infantis, que se assistiu à verdadeira génese desta literatura, com destaque para a Geração de 70 (Guerra Junqueiro, Adolfo Coelho), cujos textos eram ainda retóricos e moralizantes, mais preocupados em ensinar do que em proporcionar prazer estético.


As três primeiras décadas do século XX constituem uma "época de ouro", impulsionada pela implantação da República em 1910. Autores como Ana de Castro Osório, Virgínia de Castro e Almeida, Aquilino Ribeiro, Jaime Cortesão e Afonso Lopes Vieira produziram obras de qualidade, imbuídas de ideais patrióticos e republicanos e de valorização da educação, do trabalho e da natureza. Destacam-se o Romance da Raposa, de Aquilino Ribeiro, singularizado pela inventividade lexical e pela ironia, e o Romance das Ilhas Encantadas, de Jaime Cortesão, que aborda a origem mítica da vocação marítima portuguesa.


O longo período do Estado Novo (até 1974) teve um impacto negativo, impondo uma literatura nacionalista e moralizante ao serviço da ideologia do regime, com a extinção das classes infantis e a redução da escolaridade. Ainda assim, o autor salienta vozes como a de José Gomes Ferreira, com As Aventuras de João Sem Medo, um libelo contra o conformismo, e a de Virgínia de Castro e Almeida, que, embora tivesse aderido ao salazarismo, deixou obras de mérito literário, como as histórias de Dona Redonda.


Com o 25 de Abril de 1974, assistiu-se a uma renovação qualitativa, com o surgimento de autores fundamentais como Ilse Losa, Matilde Rosa Araújo, Sophia de Mello Breyner, António Torrado e Alice Vieira. Sophia confirmou a maioridade literária da produção portuguesa com contos que exaltam a natureza, a harmonia e a justiça, enquanto Alice Vieira se distinguiu pelo realismo sensível e pela escrita depurada, abordando temas como o ciúme, a orfandade afetiva e a morte.


Segundo o referido autor, na literatura juvenil, destaca-se o sucesso das séries "Uma Aventura...", de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada, e "Triângulo Jota", de Álvaro Magalhães, esta última de maior qualidade literária. Fica evidente que há géneros pouco explorados em Portugal, como a ficção científica, e que as narrativas históricas são menos abundantes do que seria desejável.


O autor conclui apontando várias especificidades: a persistente preocupação didática e moralizante, que só tardiamente se libertou; a escassa presença do fantástico e da "alta fantasia", preferindo os autores portugueses uma fantasia mais ligeira ou o recurso a histórias de animais; a lacuna na abordagem de temas históricos recentes, como o Estado Novo, a Guerra Colonial e o 25 de Abril, o que, segundo uma investigadora citada, revela que os portugueses ainda não terão "digerido" o seu passado colonial; a forte tradição do realismo social, com autores a retratarem as dificuldades da infância, a pobreza e o abandono afetivo; o peso significativo da poesia infantil, cultivada por grandes poetas como Fernando Pessoa, Eugénio de Andrade e Manuel António Pina; e a fraca tradição do álbum ilustrado, devido a condicionantes editorais e ao estatuto dos ilustradores, embora haja exceções de mérito, como as obras de Manuela Bacelar.





"A literatura portuguesa para crianças e jovens"

Autor: José António Gomes


"Literatura para a infância em Portugal: conceptualização e contextualização histórica"

Autora: Carina Miguel Figueiredo da Cruz Rosa Rodrigues



Poema em imagem da autoria de Luisa Ducla Soares